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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


10.08.16

Carlos, Amaro e os anos mais felizes das vidas deles.

por Nes.

Dizem que não há amor como o primeiro, mas em Eça tal adágio pode ser adoptado para não há amor como o impossível. Em "O Crime do Padre Amaro" e "Os Maias" temos duas personagens masculinas, complexas, que vivem amores que os fazem genuinamente felizes - mas que acabam tragicamente, impossibilitados por motivos inexoráveis.

 

Temos Carlos da Maia, bonito e rico, com educação e gostos de luxo, que alia aos adornos do espírito a útil profissão de médico - embora se revele um diletante, condenado pela sua dispersão a viver irremediavelmente pelos rendimentos, sem préstimo real para a sociedade. A vida de Carlos é habilmente descrita para que pareça que tudo está preparado na sua vida para receber "a" mulher. E "Ela" aparece, após várias conquistas infrutíferas, que terminam sempre num intenso enfado da parte de Carlos. É Maria Eduarda, uma senhora que chamou a sua atenção pelo belíssimo aspecto físico, e por quem terminou completamente apaixonado, a ponto de o levar a saltar olimpicamente por cima de um passado dúbio. Tudo aquilo que viveu Maria Eduarda pode aos nossos hodiernos olhos parecer de pouca monta, mas se enquadrarmos o livro naquela época, percebemos que Carlos teve necessariamente de relevar uma série de preconceitos.

daqui.

 

E eis que quando tudo está encaminhado para que Carlos e Maria vivam numa felicidade inesgotável, um Senhor Guimarães passa e revela toda a verdade. Carlos e Maria são irmãos, ambos filhos de Pedro da Maia e de Maria Monforte; ele julgava que a sua mãe e irmã estavam mortas, ela nunca supusera a sua existência. Vemos que as personagens são separadas por um elemento impossível de arredar, que nem a maior boa vontade do mundo poderia perdoar: o incesto. Essa impossibilidade fez os sentimentos arder mais forte ante a obrigação de ter de os sufocar - e é por isso que Carlos diz, ao visitar o Ramalhete dez anos depois:


"- É curioso! Só vivi dois anos nesta casa, e é nela que me parece estar metida a minha vida inteira!
Ega não se admirava. Só ali no Ramalhete ele vivera realmente daquilo que dá sabor e relevo à vida - a paixão."

 

Não me espanta - depois de tantos e tão intensos entraves, a vida calma em Paris só poderia parecer insípida, e os anos lá passados tão fundidos e uniformes como ferro líquido.

daqui.

 

É hora de dar um salto a Leiria e ir encontrar o padre Amaro, homem impelido para o sacerdócio "como um boi para o curral". Esta falta de vocação é uma das principais críticas implícitas no livro e aquela que mais vezes justifica a conduta de Amaro. Ao longo das páginas vemos como a figura da Mulher está intensamente presente e o desconcentra: na infância, brincando com as criadas; no seminário, espreitando debaixo das túnicas das imagens; na casa do Conde de Ribamar, perturbado pelas canções cantadas por mulheres vestidas de seda preta; na serra da Gralheira, abraçado à pastora Joana; e em Leiria, onde enfim é correspondido. Essa paixão de Amélia (habilmente entrevista pelo autor como o resultado natural em alguém que dedica a infância ao convívio com padres) adivinhada por Amaro é o mote para que este não mais desista de a alcançar. Aos poucos afasta o noivo de Amélia, seduz a jovem, prepara o terreno, encontram-se pontualmente - e com uma imprevidência que roça o cómico, Amélia engravida.

daqui.

 

Temos uma vez mais um factor de impossibilidade, desta feita porque Amaro é padre. Não sei se naquela época seria possível um padre abandonar a Igreja. Certo é que as personagens não vêem essa possibilidade; fora um delírio nocturno de Amélia, que imagina como seria a sua vida com Amaro se fugissem, não vemos grandes chances de contornar o sacerdócio. Amélia carrega o filho de Amaro, dá-o à luz, e morre. Amaro foge para Lisboa, fustigado pelo desgosto e cheio de medo que a morte lhe seja associada. Anos mais tarde, encontramo-lo em Lisboa com o cónego Dias, que goza com o facto de Amaro, nos primeiros tempos após o sucedido, ter querido fugir para a serra:

 

"— Que quer você, padre-mestre?... Naqueles primeiros momentos... Olhe que me custou! Mas tudo passa...
— Tudo passa, disse o cónego. E depois de uma pausa: — Ah! Mas Leiria já não é Leiria!
Passearam então um momento em silêncio, numa recordação que lhes vinha do passado, os quinos divertidos da S. Joaneira, as palestras ao chá, as passeatas ao Morenal, o Adeus e o Descrido cantados pelo Artur Couceiro e acompanhados pela pobre Amélia que, agora, lá dormia no cemitério dos Poiais, sob as flores silvestres..."

 

Para Amaro a perda de Amélia é também símbolo do dever de afogar repentinamente os sentimentos, e gera do mesmo modo uma saudade indescritível, assemelhando-se Leiria ao único lugar da terra onde foi verdadeiramente feliz. "Foi aquele o período mais feliz da vida de Amaro. 'Ando na graça de Deus', pensava ele às vezes à noite, ao despir-se". A impossibilidade gera a comparação, e todos os períodos da vida ficam a perder em função daquele em que se viveu intensamente e foi necessário, por imposição da sociedade, esquecer.

daqui.

 

Se Carlos e Amaro fossem livres de viver com Maria e Amélia, será que as coisas tinham corrido bem? Talvez um casamento se revelasse mais tarde uma desilusão. Sem impossibilidades, talvez os sentimentos morressem, ou fossem feridos pela banalidade dos dias. Ainda assim, a inexorabilidade dos factores externos é aquilo que dá sabor às histórias - e mortas ou não, as mulheres em causa tornam-se verdadeiramente inesquecíveis.

publicado às 09:26

2 comentários

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    Nes. 12.08.2016 09:14

    sim, só mesmo quando tudo passa aquele período parece ter um mundo de acontecimentos lá dentro :)
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