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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


08.06.16

Caridade ou caridadezinha?

por Nes.

- Socialista, legitimista, orleanista, dizia ela, qualquer coisa, contanto que não haja gente que tenha fome!

 

Assim dizia Maria Eduarda da Maia a Carlos, quando falavam da protecção devida aos mais fracos, e da necessidade de uma sociedade onde todos tivessem pão. Existem preocupações humanitárias em várias personagens de Eça - Maria e Afonso da Maia partilham essa sensibilidade. Jacinto d' "A Cidade e as Serras" era tão pródigo que lhe chamavam "O Pai dos Pobres". O próprio Eça, em vários textos d' " As Farpas", revela preocupações louváveis pela justiça e piedade. Falo dos textos que escreveu, a título de exemplo, sobre a pobreza dos pescadores, os encargos e naufrágios que enfrentam, a pobreza dos professores primários, as condições em que viajam os deportados a caminho das colónias, entre outros.

 

daqui.

 

Há todavia um trecho n' "A Capital" que a meu ver, interligada com a primeira citação deste texto, mostra como existia decerto maior denodo a qualificar as acções, em vez de agir efectivamente. Carlos chamou socialista a Maria devido à sua piedade para com os pobres, como vimos. Mas quando Artur Corvelo se inscreve no Partido Republicano, tem um outro membro - Sr. Falcão - que se inscreve em simultâneo e que atira, fatalmente, as seguintes palavras:

"— Desejando fazer parte do Clube Democrático, quero evitar equívocos. Uma só palavra os desfaz: eu sou socialista! — Olhou em redor, repetiu com força: — Eu sou socialista! So-cia-lista! Recuou um passo, cruzou os braços sobre o peito, erguendo a face lívida, como para afrontar a morte."

A discussão em torno desta declaração foi longuíssima, sem que pudesse haver acordo quanto ao que seria realmente um socialista. Para a terminar entendeu-se questionar o próprio Sr. Falcão. Soltou um arrazoado "— Entendo uma nova concepção da Propriedade, do Trabalho, do Casamento, da Educação, da Sanção Moral, etc... em oposição às soluções dadas pela Igreja e as instituições que as realizam..." Não só ficamos sem saber concretamente o que era um socialista, como ainda pior ficámos com o remate do Matias "Então, mais ou menos, somos todos socialistas..." Perderia a frase o seu sentido, se Matias tivesse dito "somos todos bota-abaixistas"?

 

daqui.

 

Melhor ainda só quando vemos que é n' "O Crime do Padre Amaro" que a caridade escasseia, quando é aqui, por força da lógica, da crença e do exemplo, que ela se devia manifestar. Os padres jantam com o abade e um mendigo bate à porta. A criada do abade dá-lhe meia broa, e os padres, confortavelmente sentados a um fausto banquete, rosnam barbaridades sobre a preguiça e imoralidade dos pobres, completamente insensíveis ao drama dos mais pobres.

"Então que diabo querias tu que eles comessem? exclamou o cónego Dias lambendo os dedos depois de ter esburgado a asa do capão. Querias que comessem peru? Cada um como quem é!"

 

É também o cónego Dias o dono de uma frase maravilhosa, mais à frente no livro - "É por isso, saiba a senhora, que essa canalha que prega que os trabalhadores e as classes baixas devem viver melhor do que vivem, vai de encontro à expressa vontade da Igreja e de Nosso Senhor, e não merece senão chicote, como excomungados que são! Ouf!"

 

daqui.

 

Por fim, vemos que Amaro e Amélia justificam as visitas a casa do sineiro com a nobre missão de ensinar a filha entrevada do Tio Esguelhas a ler, e que as velhotas querem todas participar, antecipando os elogios. "Os olhos de todas acenderam-se numa excitação devota, à ideia daquela missão de caridade, que partia ali delas, da Rua da Misericórdia... Extasiavam-se, no antegosto guloso dos elogios do senhor chantre e do cabido!" Mas Amaro abafa esses propósitos, unicamente pelo interesse egoísta de abafar os seus amores... Chega a ser imoral que ele use um dever da sua classe - a caridade - para ocultar o facto de pisar com força um juramento - o celibato.

 

daqui.

 

Quem não conhece os caridosos interesseiros? O mundo não mudou assim tanto. Quem precisa, presumo, não se deve preocupar muito com a publicidade, mas é uma vaidade inqualificável, inimaginável em pessoas de bem. Eça soube usar os conhecimentos que tinha de ambos os lados - criando esta grupeta de interesseiros em Leiria, mas inventando também Afonsos e Jacintos, livres de moralidades de sacristia, infinitamente mais humanos. E há ainda ele próprio, Eça, cujos textos n' "As Farpas" puderam fazer a diferença no seu tempo.

 

 

 

P.S. De 9 a 19 de Junho, "Não Mates o Mandarim", Teatro Experimental do Porto. Adaptação da novela " O Mandarim", em exibição no Teatro Nacional de São João.

publicado às 14:19

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