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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


01.06.16

Bananices - porque todos temos dias-não.

por Nes.

Todas as boas personagens têm traços de verosimilhança com pessoas que conhecemos da vida real - e as personagens de Eça têm também dias em que tudo foge do seu controlo. Hoje vemos que por vezes as personagens estão nervosas por algum motivo, o que leva a que ajam de uma maneira inconveniente, aborrecida ou estouvada.

 

O que traz três situações similares, em três livros que não podiam ser mais distintos. Todas têm em comum o facto de descreverem dias grandes na  vida das personagens, que correm mal devido ao embaraço e à necessidade de estarem à altura, que os leva somente a conseguirem expressar-se por monossílabos ou com recurso a palavras pouco elevadas.

 

Eis como Artur Corvelo, no seu primeiro serão do high-life, em casa da Sra. Joana Coutinho, coloca expectativas demasiado elevadas naquilo que se vai passar. Imagina-se, poeta do Ideal, a deslumbrar as senhoras presentes com os seus ditos maravilhosos, e a sair da soirée em glória, provocando paixões em mulheres ornadas de jóias caras. Todavia não contava com a sua timidez, nem com a fraca receptividade aos membros recém-chegados - e passa a maior parte do tempo mudo e regelado de medo. O momento mais propício para começar o seu esplêndido trabalho de D. Juan das Letras é aquele no qual é apresentado a uma Sra. Baronesa:

"Ela olhou para Artur um pouco de lado, e Padilhão, muito correcto, apresentou-o:
— O meu amigo Artur Corvelo. E agora — acrescentou — vou ver o D. Frederico, que tem perdido e está furioso... Au revoir, Srª Baronesa!

Artur, vermelho, procurava uma palavra, quando ela, reparando numa das fotografias, lha mostrou:
— É Rochefort, não é?

Artur, quase inconscientemente, soltou:

— Grande apepinador!
E, espantado, aterrado daquela frase quase obscena, que lhe saíra involuntariamente, como um arroto, sentiu a vergonha esbrasear-lhe a pele, pôr-lhe um suor nas mãos, imobilizá-lo."

 

E um "apepinador" é o quê? Aparentemente é calão para designar alguém que tem o hábito de ridicularizar ou troçar de outrem. E Artur, poeta, literato, correcto a expressar-se, diz asneira mal abre a boca...

 

Mas se fosse só Artur!... Que dizer de Vitorino Cruges, esse músico de fino talento, e da sua atitude quando visita pela primeira vez Maria Eduarda nos Olivais? É conhecido o seu carácter tímido e recatado, bem como os seus lendários ataques de spleenAcho bonito como até para se falar em momentos depressivos e melancólicos, nessas crises que nos fazem passar um dia inteiro sem pronunciar mais do que trinta palavras, se recorre a expressões literárias - no caso, cunhado pelo poeta Charles Baudelaire na famosa colectânea "As Flores do Mal". Mas voltemos ao nosso amigo Cruges, que tão nervoso estava que só dizia coisas que o envergonhavam:

 

"O pobre maestro, roçando a casaca mal feita pela folhagem dos arbustos, fazia esforços ansiosos por murmurar algum elogio «à beleza do sítio»; mas escapavam-lhe então inexplicavelmente coisas reles, em calão: «vista catita»! «é pitada»! Depois ficava furioso, coberto de suor, sem compreender como se lhe babavam dos lábios esses ditos abomináveis, tão contrários ao seu gosto fino de artista. Quando se sentou à mesa sofria um negríssimo acesso de spleen e mudez!"

 

"É pitada"? Confesso que dei voltas e voltas à cabeça e não imagino o que signifique isto. Ser catita é uma expressão do povo e que várias vezes se encontra para falar de algo engraçado... Mas bem gostava de poder perguntar a Eça o que raio significa ser pitada. Por vezes fala-se na pitada do rapé em vários livros, hoje falamos em pitadas de sal e pimenta... Mas naquele tempo, "ser pitada" não faço ideia do que seria, e bem gostaria de o saber.

 

Melhor que tudo só mesmo a reacção do narrador, ao qual desconhecemos o nome, quando conhece Carlos Fradique Mendes, esse Apolo dos tempos modernos, que tem a seu favor o facto de ter publicado as "Lapidarias", obra que o narrador considera uma das mais belas e inteligentes expressões do génio humano em verso.

 

"Pela escada, o poeta das Lapidarias aludiu ao tórrido calor de Agosto. E eu que nesse instante, defronte do espelho no patamar, revistava, com um olhar furtivo, a linha da minha sobrecasaca e a frescura da minha rosa―deixei estouvadamente escapar esta coisa hedionda:
―Sim, está de escachar!
E ainda o torpe som não morrera, já uma aflição me lacerava, por esta «chulice» de esquina de tabacaria assim atabalhoadamente lançada como um pingo de sebo sobre o supremo artista das Lapidarias, o homem que conversara com Hugo à beira-mar!... Entrei no quarto atordoado, com bagas de suor na face. E debalde rebuscava desesperadamente uma outra frase sobre o calor, bem trabalhada, toda cintillante e nova! Nada! Só me acudiam sordidezes paralelas, em calão teimoso:―«é de rachar»! «está de ananases»! «derrete os untos»!... Atravessei ali uma dessas angústias atrozes e grotescas, que, aos vinte annos, quando se começa a vida e a literatura, vincam a alma―e jamais esquecem"

 

Confesso que já tive imensas vezes a tentação de atirar uma destas considerações para o ar, em dias de extremo calor - principalmente aquela maravilhosa frase "derrete os untos"! Pode até ser calão da época, mas inegavelmente têm imensa piada. Além disso, há alguma frase original a dizer sobre o calor? O nervosismo e a necessidade de brilhar em ocasiões específicas deixam-nos realmente cegos!

 

publicado às 09:39

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