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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


12.11.17

Algumas Cartas de Amor São Mais Ridículas do Que Outras

por Nes.

Quando o Padre Amaro andava a fazer a corte à menina Amélia, o malicioso Eça de Queirós não poupou na teoria que, linhas à frente, seria explorada pelo Abade Ferrão - que o amor do padre não passava de uma explosão de desejo em bruto, o qual era reprimido pelas severas leis da Igreja, de forma antinatural e potencialmente causadora de desgraças no seio da paróquia. O padre, transformado pelo desejo sexual, tornava-se no lobo que devorava as ovelhas do seu rebanho, quando devia ser o seu dedicado pastor.

daqui.

Por isso, quando Amaro entrevê o tornozelo de Amélia na visita à fazenda, o furor do qual é tomado é suficiente para o fazer esquecer todas as conveniências e pespegar-lhe um beijo no pescoço - a uma rapariga solteira, noiva de outro, criada na rígida moral católica, papa-missas, e igualmente deslumbrada pelo pároco novo.

 

"Amaro resvalou, firmou-se — e sentindo entre os braços o corpo dela, apertou-a brutalmente e beijou-a com furor no pescoço.
Amélia desprendeu-se, ficou diante dele, sufocada, com a face em brasa, compondo na cabeça e em roda do pescoço, com as mãos trémulas, as pregas da manta de lã. Amaro disse-lhe:
— Ameliazinha!"

daqui.

 

A atração, alimentada pelos obstáculos - os votos dele, o noivado dela, a potencial reprovação de uma sociedade conservadora - transforma-se assim num monstro que os consome e transtorna de uma forma que hoje em dia nunca seria possível. Os dilemas destas personagens não são imagináveis atualmente. A rapariga deixaria o noivo, que rapidamente arranjaria uma nova namorada; o padre e a rapariga iniciariam os seus encontros com poucos ou nenhuns remorsos; o padre registaria posteriormente uma filha com o seu nome, e seria louvado pela sua atitude pelas suas próprias ovelhas.

 

daqui.

Assim, na sociedade do século XIX, uma atração deste género, recheada de espinhos, sem Facebook, presa a uma linguagem extremamente formal, só podia dar bilhetinhos deste tipo.

"Deve ter compreendido que lhe voto um fervente afeto, e pela sua parte me parece, (se não me enganam esses olhos que são os faróis da minha vida, e como a estrela do navegante) que também tu, minha Ameliazinha, tens inclinação por quem tanto te adora"

(bela alternância entre o "você" e o "tu")

"tu apertaste-me a mão por baixo da mesa com tanta ternura, que até me pareceu que o Céu se abria e que eu sentia os anjos entoarem o Hossana!"

(nada como invocar delícias celestes para justificar vontades tão terrenas)

"Se pensas que o nosso afeto pode ser desagradável aos nossos anjos da guarda, então te direi que maior pecado cometes trazendo-me nesta incerteza e tortura, que até na celebração da missa estou sempre com o pensar em ti, e nem me deixa elevar a minha a/ma no divino sacrifício."

(uma pequenina chantagem emocional para apimentar as coisas)

"Mas eu tenho interrogado a minha alma e vejo nela a brancura dos lírios. E o teu amor também é puro como a tua alma, que um dia se unirá à minha, entre os coros celestes, na bem-aventurança"

(o lírio, símbolo da virgindade. Este padre sabe-a toda)

"Se tu soubesses como eu te quero, querida Ameliazinha, que até às vezes me parece que te podia comer aos bocadinhos!"

(fugindo a boca para a verdade)

"Adeus, anjo feiticeiro, recebe a oferta do coração do teu amante e pai espiritual"

daqui.

Confesso que esta última frase sempre me fez confusão. Uma oferta de um coração amante faz sentido - mas uma oferta de um coração de um "pai espiritual"? É por isso que estou convencida que Eça nunca conseguia evitar um certo tom caricatural. Ninguém acredita que esta carta alguma vez pudesse ser escrita, lida e sentida por alguém!

 

Resumindo - no fundo, o padre Amaro aproveita-se do ascendente que tem sobre uma beata como Amélia para se firmar um pouco melhor nesta postura dominante a que o obriga a absoluta necessidade de estar com uma mulher. E isto é notório mais à frente, quando os dois se envolvem e Amaro lhe conta lérias de todo o tipo para a convencer de que não estão a fazer nada de errado.

"Era este poder divino do padre, esta familiaridade com Deus, tanto ou mais que a influência da sua, voz — que a  aziam crer na promessa que ele lhe repetia sempre: que ser amada por um padre chamaria sobre ela o interesse, a amizade de Deus; que depois de morta dois anjos viriam tomá-la pela mão para a acompanhar e desfazer todas as dúvidas que pudesse ter S. Pedro, chaveiro do Céu; e que na sua sepultura, como sucedera em França a uma rapariga amada por um cura, nasceriam espontaneamente rosas brancas, como prova celeste de que a virgindade não se estraga nos braços santos dum padre..."

daqui.

 

Grande treteiro, não?

publicado às 16:48

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