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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


19.11.17

Ainda a produção escrita nos livros de Eça.

por Nes.

Os livros de Eça serão o que serão para cada um dos seus leitores - irónicos, cómicos, reais, hipócritas, intragáveis - mas não deixa de ser curioso que dentro de cada história exista vulgarmente uma personagem que escreve. João da Ega, Artur Corvelo, Fradique Mendes, Gonçalo Mendes Ramires, contam-se entre aqueles que alimentavam interesses literários nas suas páginas.

daqui.

Mas afinal como é que um escritor, que já procura que a sua própria obra seja perfeita, consegue fazer com que as suas personagens escrevam coisas que as próprias - e os outros - consideram aceitáveis ou mesmo excelentes?

 

"Um soneto que produzira então, trabalhado à maneira de João de Deus com toques de idealismo camoniano, e que era a melhor obra da sua curta carreira poética, dava a explicação da sua alma:
A vida, em que os meus anos se passavam,
Era como um terreno abandonado
Que nunca produziu, nem foi arado,
E que as águas do céu nunca molhavam.


Ali jamais abelhas sussurravam,
Nem de ave se escutou meigo trinado:
Um ermo escuro sob um céu nublado,
Onde só duros cardos negrejavam.


Mas tu vieste! Assim, por trás dos montes,
Se ergue o divino Sol no fresco ar...
E eu senti logo — oh claros horizontes! –


Tudo em minha alma reflorir, brotar,
Aves cantarem, murmurarem fontes,
Searas de desejos a ondular!"

daqui.

Este excerto da obra "A Capital" traduz uma das produções poéticas do protagonista Artur Corvelo e foi o mote para esta reflexão. Eça tem bastantes personagens que escrevem coisas tontas. Quem não se lembra da carta do Dâmaso, que n' "Os Maias" escrevia uma carta a confessar-se um bêbado sem remédio, só para evitar um duelo com o antigo amigo Carlos da Maia? E quando há personagens que admiram coisas mal escritas ou estúpidas, tal é na verdade um meio para criticar quem produz a opinião e não o seu objeto. Basta recordar a admiração fervorosa do amigo de Artur, o torpe Rabecaz, por nomes.

 

"A Artur, o que lhe valia eram os livros. Recolhia cedo a casa, tomava o seu Vítor Hugo...Rabecaz arregalou os olhos.
— Vítor Hugo! — rosnou com uma voz cava. — Um mundo!
Aquela admiração, precisada numa palavra profunda, entusiasmou Artur. E com a pupila acesa, os cotovelos na mesa:
— Pois não é verdade? As Contemplações! Os Miseráveis! E Lamartine?
O Rabecaz alargou os braços, como para designar um seio de proporções mais que humanas e soltou:
— Lamartine? Um mundo!
— O tipo de Elvira, hem? E o tipo divino de Graziela? Mas Alfredo de Musset? Oh! Alfredo de Musset!
O Rabecaz reflectiu, com um vinco na testa:
— Desse não estou ao facto... Mas Guizot! Um mundo!"

daqui.

Mas aquilo que perturba é na verdade a existência de textos, como o soneto acima, que são classificados pelo próprio narrador como boas obras, ou bons trabalhos. É o que também acontece quando o poeta Roma ouve a cena dramática final da peça de teatro de Artur, e lhe reconhece "emoção, ideal, estilo". É também o que acontece com a admiração que manifestam os amigos de João da Ega - e que aos olhos do leitor se apresenta como legítima - face aos seus artigos sobre a bela Raquel Cohen, em "Os Maias".

 

"Tomou-o de cima do bilhar, leu alto o trecho sobre o boudoir cor de rosa de madame Cohen: «respira-se ali (dizia o Ega) alguma coisa de perfumado, íntimo e casto, como se todo aquele cor de rosa exalasse de si o aroma que a
rosa tem»!
- Isto, caramba, é lindo em toda a parte! exclamou o marquês. Tem muito talento, aquele diabo! Tomara eu ter o talento que ele tem!..."

daqui.

Assim, verificamos em Eça dois tipos de manifestação de admiração literária.

 

1. O estilo "Zagalo" - a admiração caricatural e inverosímil que uma personagem alimenta por um texto ou pelo seu escritor, quando aos olhos de qualquer pessoa (como dizem os juristas, recorrendo ao critério do homem médio) tal é completamente injustificável, pela estupidez e parvoíce que quer o texto quer o escritor emanam. Este é o estilo dominante na obra de Eça e é utilizado sempre que o objetivo é ridicularizar quer o autor, quer o respetivo admirador. Como o próprio nome indica, é o que acontece a toda a hora ao longo da história "O Conde de Abranhos".

"Deus existe! Tudo o prova,
Tanto tu, altivo Sol,
Como tu, raminho humilde
Onde canta o rouxinol!


Estes versos, que eu escrevi quando me verdejavam na alma as ilusões da mocidade, poderia escrevê-los hoje que a experiência da vida me tem demonstrado que fora de Deus, não há senão ilusão e vaidade...
Conde d'Abrunhos.
Quando voltei a Lisboa e mostrei esta página preciosa à minha Madalena – que surpresa, que arrebatamento! Falámos até tarde, essa noite, da bondade do Conde e da vastidão do seu génio."

daqui.

2. O estilo "Não está mau!" quando o próprio Eça parece aprovar o que as personagens escrevem, e cuja produção perturba - pois como podemos escrever algo que tem de ser considerado bom não só pelas personagens, mas também pelos leitores do próprio livro?

"Foi sensualmente enterrado nesta idolatria da Forma, que deparei com essas LAPIDÁRIAS de Fradique Mendes, onde julguei ver reunidas e fundidas as qualidades discordantes de majestade e de nervosidade que constituiam, ou me pareciam constituir, a grandeza dos meus dois ídolos — o autor das Flores do Mal, e o autor dos Poemas Bárbaros. A isto acrescia, para me fascinar, que este poeta era português, cinzelava assim preciosamente a língua que até aí tivera como jóias aclamadas o Noivado do Sepulcro e o Ave César!, habitava Lisboa, pertencia aos Novos, possuía decerto na alma, talvez no viver, tanta originalidade poética como nos seus poemas!"

daqui.

É essa a pergunta que deixo, e que faria ao próprio Eça se estivesse vivo. Como é que se escreve algo que se pretende que seja considerado bom e bem escrito, quer pelas personagens do livro, quer pelo público que lê o nosso livro?

publicado às 11:04

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