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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


28.09.16

A husband in need is a husband indeed.

por Nes.

Os clássicos estão recheados de histórias de amores adúlteros e relações conjugais complicadas. Temos Anna Karenina, Madame Bovary, O Amante de Lady Chatterley, só para começo de conversa. Têm em comum um marido enganado, normalmente titular de defeitos que em parte legitimam a conduta da respectiva cara metade. Nos dois primeiros casos temos maridos bananas que fecham os olhos aos desvarios das esposas; no terceiro temos um marido paralisado e incapaz de satisfazer a esposa (que me recorda Belle de Jour, protagonizado pela belíssima Catherine Deneuve, que dá também visibilidade às ânsias sexuais de uma esposa, insatisfeitas pelo cônjuge). No fundo, a culpa também é dos maridos, um chiché que tem sido perpetuado desde a noite dos tempos.

 

Ou então não. Apresento-vos Jorge Brito, marido de Luísa em "O Primo Basílio".

 

"Tinha tudo, ele, para fazer uma mulher feliz e orgulhosa: era belo, com uns olhos magníficos, terno, fiel. Não gostaria de um marido com uma vida sedentária e caturra; mas a profissão de Jorge era interessante; descia aos tenebrosos das minas; um dia aperrara as pistolas contra uma malta revoltada; era valente; tinha talento!"

 

daqui.

 

É a própria esposa que assim pensa, e Jorge de facto não é nenhum tolo. Vejamos a descrição que o narrador dele faz, algo típico de Eça - a descrição dos precedentes em termos de família, educação e contexto social.

 

"De sua mãe herdara a placidez, o gênio manso. Quando era estudante na Politécnica, às oito horas recolhia-se, acendia o seu candeeiro de latão, abria os seus compêndios. Não freqüentava botequins, nem fazia noitadas. Só duas vezes por semana, regularmente, ia ver uma rapariguita costureira, a Eufrásia, que vivia ao Borratem, e nos dias em que o Brasileiro, o seu homem, ia jogar o bóston ao clube, recebia Jorge com grandes cautelas e palavras muito exaltadas; era enjeitada, e no seu corpinho fino e magro havia sempre o cheiro relentado de uma pontinha de febre. Jorge achava-a romanesca, e censurava-lho. Ele nunca fora sentimental; os seus condiscípulos, que liam Alfred de Musset suspirando e desejavam ter amado Margarida Gautier, chamavam-lhe proseirão, burguês; Jorge ria; não lhe faltava um botão nas camisas; era muito escarolado; admirava Luís Figuier, Bastiat e Castilho, tinha horror a dívidas, e sentia-se feliz."

 

Aqui vemos que Jorge não é um romanesco, um doidivanas como os colegas. É engenheiro de minas, o que desde já lhe assegura o que na mística de Eça constitui um homem decente - conhecimentos práticos, uma profissão útil, sem desvarios sentimentais, censurando inclusive o carácter "romanesco" da namorada de então, organizado e metódico. Os seus hábitos literários - Luís Figuier, cientista; Frédéric Bastiat, economista; e Castilho, que duvido muito que se trate do ultra-romântico escritor português António Feliciano de Castilho - denunciam um homem de espírito positivo, prático, terra a terra.

 

daqui.

 

Se dúvidas restavam do espírito viril de Jorge, vejamos como ele reagiu ao final do drama escrito pelo primo Ernestino:

"Falo sério e sou uma fera! Se enganou o marido, sou pela morte. No abismo, na sala, na rua, mas que a mate. Posso lá consentir que, num caso desses, um primo meu, uma pessoa da minha família, do meu sangue, se ponha a perdoar como um lamecha! Não! Mata-a! É um princípio de família. Mata-a quanto antes!"

 

O perfil psicológico de Jorge é como o algodão, não engana - estamos perante um homem sério, másculo, um bom homem  de família, com firmeza de convicções e capaz de dar um murro na mesa quando necessário, embora tenha por norma um temperamento tranquilo e são. Parece-me que um marido assim vem um pouco na senda das descrições familiares d' "As Farpas", através das quais Eça nos traça o adultério.

 

"Ora o que se faz a esta mulher inteiramente, exclusivamente educada para o amor?

Esta mulher, assim formada, casa. O marido vai, decerto, dar a esta natureza, que vem curiosa, impressionável e agitável, uma ocupação que a absorva e que a preencha?

Não. E nas classes ricas: o marido trata de lhe tirar todo o trabalho, todo o movimento, toda a dificuldade, alarga-lhe a vida em redor, e deixa-a no meio, isolada, fraca e tenra, abandonada à fantasia, ao sonho e à chama interior: a cabeleireira penteia-a, as criadas vestem-na, a governanta trata-lhe da casa, a ama cuida-lhe dos filhos, as moças arrumam-lhe os quartos, o marido ganha-lhe dinheiro, a modista faz-lhe os vestidos - um cupé macio caminha por ela, um jornal de modas pensa por ela. - O que resta a esta infeliz criatura, encolhida no tédio da sua causeuse? Resta-lhe a sua genuína ocupação, a que lhe ensinaram e em que é perfeita - o amor.

Se o marido se conserva um amante - bem. Mas se o marido, naturalmente, como deve ser, se ocupa dos seus negócios, do seu escritório, da sua política, dos seus fundos, do seu clube, dos seus amigos - mal. Ela naturalmente faz como um amanuense que, tendo por profissão escrever, quando tem escrita e cheia a primeira folha de papel, toma outra - para continuar a escrever."

 

daqui.

 

E aí temos Eça a conferir ao marido enganado boas e grandes qualidades - colocando toda a responsabilidade do adultério nas más companhias (Leopoldina), no sedutor Basílio, na educação romanesca de Luísa, e no facto de a sociedade de antanho não valorizar suficientemente a mulher, atribuindo-lhe um papel ornamental dentro da sua própria casa. Sempre me fez confusão que um casal sem filhos, como Luísa e Jorge, precisassem de uma criada e de uma cozinheira - e mais me surpreendeu que Luísa, escrava da chantagem de Juliana, se "esfalfasse a trabalhar" enquanto tratava da sua casa e das suas coisas, "tendo até emagrecido", a pobre! E ter sido obrigada a despejar as águas sujas, um escândalo! Minhas ricas, começo a pensar que a emancipação da mulher foi um erro, principalmente quando vou passar a ferro à uma da manhã. Nossa!

 

publicado às 11:24

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