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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

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15.06.16

A Cidade e as Serras, o Cinzento e o Verde

por Nes.

Quando ando deprimida, abatida, chateada ou triste - porque está mau tempo, porque o trabalho é uma treta, porque no Mundo acontecem muitas desgraças, porque preciso de férias - há muitas possibilidades de ir respirar um pouco aos livros que me tragam vidas simples, elogios à beleza do campo, fortes descrições da Natureza, boa comida e sentimentos optimistas. Logicamente "A Cidade e as Serras" está no topo da pilha (amparado por Júlio Dinis).

daqui.

Jacinto seria um hipster insuportável, se vivesse nos dias actuais. Seria rico, sedento por conhecimentos novos, íntimo do Jet7 e das festas do croquete, mais conhecido que as pedras da calçada, neste Portugal pequenino como um ovo. A sua mania de acumular Civilização fá-lo-ia ser dos primeiros a ter tudo, mas não o veríamos na fila da FNAC para comprar o mais recente iPhone - o aparelho ser-lhe-ia levado a casa, preciosamente, por um representante da marca. Teria em casa um salão para sessões de cinema e paredes forradas de DVD, uma biblioteca imensa e ebooks aos pontapés, o mais veloz serviço de Internet, as máquinas fotográficas mais complicadas. Seria árbitro das elegâncias, à imagem do velho Petronius, e teria agendas com milhares de números de telefone.

daqui.

Todavia, Jacinto é Jacinto, seja no século XIX, seja no século XXI, e iria cair na depressão, irremediavelmente. Talvez não desabafasse no Facebook, tal como o antigo Jacinto:

"O elegante e reservado Jacinto não torcia os braços, gemendo--«Oh vida maldita!» Eram apenas expressões saciadas; um gesto de repelir com rancor a importunidade das coisas; por vezes uma imobilidade determinada, de protesto, no fundo de um divã, donde se não desenterrava, como para um repouso que desejasse eterno; depois os bocejos, os ocos bocejos com que sublinhava cada passo, continuado por fraqueza ou por dever iniludível; e sobretudo aquele murmurar que se tornara perene e natural--«Para quê?»--«Não vale a pena!»--«Que maçada!...»

 

 

Talvez tentasse dar a volta à situação, com aulas de reiki e mindfulness; talvez algum amigo o convencesse a pintar mandalas, como esse parvo costume de agora; talvez fosse ao médico, e sairia de lá entupido em tranquilizantes. Conseguiria imaginá-lo a fazer tudo isso agora - mas tenho a certeza que se tivesse de ir para o campo, a reacção dele seria exactamente a mesma do século XIX.

daqui.

Só podia ser assim, quando me lembro como concordo com todos os fartos elogios à Serra feitos ao longo do livro, e quando me lembro da visita recente que fiz aos Passadiços do Paiva, que me deixou metade do dia de nariz no ar a apreciar as vistas e a expressar tantos "Aah" e "Ohh" e "Eshh" (além dos "IRRA SERÁ QUE ISTO AINDA SOBE MAIS?", mas isso agora não interessa nada) que não recordo uma conversa decente ao longo de todo o percurso.

daqui.

Andamos mesmo arredados da Natureza, não é? Na cidade há demasiada artificialidade, não só nas casas, no chão duro, na paisagem feita de luzes falsas, nos espaços verdes nada espontâneos - mas também nas caras, nas pessoas que se acotovelam no metro, nas frases que ouvimos ao passar pelas esplanadas, nas notícias que lemos nos jornais gratuitos, na competitividade feroz que vemos no nosso trabalho.

 

"Na Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas folhas de hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade, pelo contrário, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou a mesma inquietação; as ideias têm todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma, como as libras; e até o que há mais pessoal e íntimo, a Ilusão, é em todos idêntica, e todos a respiram, e todos se perdem nela como no mesmo nevoeiro... A mesmice - eis o horror das Cidades!"

daqui.

 

Aquela palavra - a Mesmice - ficou comigo para sempre, e nunca mais fui capaz de ver a cidade de outra forma. Felizmente vivo no campo, embora trabalhe na cidade, e sem dúvida é uma tranquilidade ímpar, uma dupla felicidade na expressão "voltar a casa". Tal como Jacinto, curo bem as minhas depressões na Natureza.

 

daqui.

publicado às 17:28

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