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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


04.05.16

A Capital - O Complexo de Artur

por Nes.

A verdadeira genialidade da escrita de Eça poderá estar na sua actualidade, e não me refiro somente a algumas frases soltas, estafadamente citadas para o justificar: todos estamos carecas de ouvir a velha citação dos políticos e das fraldas. O real espírito queirosiano poderá residir na ironia e espírito de humor - ainda hoje rio a ler "As Farpas", tão lidas e relidas, e ainda tão joviais. No entanto creio firmemente que o fulgor e faísca de Eça se manifestam na sua crítica afiada e na precisão do recorte de tão certeiros tipos da sociedade portuguesa. Os moldes traçados são ainda tão perfeitos e frescos que conseguimos, com a maior facilidade, encaixar lá as pessoas que conhecemos - da escola, do trabalho, da vida pública, do Facebook.

 

E assim partimos para a apreciação de uma excelente personagem - Artur Corvelo, herói d' "A Capital". Embora esta não seja a obra mais proeminente, entre as que foram escritas com o intuito de caricaturar a sociedade ("Os Maias" em lugar destacadíssimo, "O Crime do Padre Amaro" a seguir, muito por culpa do horroroso filme que ousou adaptá-lo ao cinema) a verdade é que é inegavelmente um retrato risonho e fiel da classe literária e intelectual daquele tempo.

 

Em suma: Artur, pobre, sonhador, tem todas as vontades, todos os desejos, toda a desmedida ambição de alcançar fama e glória pelo seu génio literário, ditos inspirados e obras imorredoiras. Artur pretendia ser um célebre poeta português. Para sonhos tão largos, tão altos, Artur esforça-se arduamente - não a trabalhar, a estudar e a escrever, mas a aprimorar cada vez mais esses maravilhosos sonhos, enquanto se arrasta calado e improdutivo por Coimbra, por Oliveira de Azeméis e por Lisboa.

 

Será preciso dizer que não alcançou nenhum dos seus objectivos? Claro que a culpa não é dele, mas sim - da falta de amigos, da sua pobreza, da burrice dos portugueses, da prevalência do dinheiro. Para alcançar a fama, Artur produz num esforço titânico um anémico livro de poesias, "Esmaltes e Jóias". Nele, os textos revelam a sua personalidade murcha, carente de afectos e de uma força orientadora, mas que nele seria desperdiçada, porque é uma daquelas pessoas que perdem rapidamente o foco nos seus projectos. Para agradar aos amigos republicanos tenta escrever poemas exaltando as virtudes da Democracia, mas tal como os outros textos, a República é escrita de uma forma açucarada e pouco viril. Movido por uma dica do lúbrico Rabecaz, escreve um drama pesado e sentimental, "Amores de Poeta", que serve igualmente para dar expressão à sua alma sedenta de heroísmo e de amores ardentes, num exercício de vaidade romanesca, exaltando as virtudes dos poetas.

 

Eça era um escritor, e portanto boa parte do seu trabalho incluía reescrever, emendar, rasurar, trocar palavras, esculpir frases, um trabalho lento e minucioso que aborrece os pouco pacientes. Ora o Artur de Eça (que em textos como "As Farpas" é o nome que Eça atribui genericamente aos romanescos, preguiçosos, amigos do sentimentalismo e da melancolia) nada faz, e deixa-se influenciar pelas opiniões alheias, mas nunca para sua vantagem. Artur envia o seu drama ao amigo Damião em busca de opiniões, mas já "sem fé", porque as cenas melhores já lhe pareciam "frias" - sem pensar sequer em corrigir uma única frase. E quando na volta do correio, Damião lhe diz sem piedade "tudo isso é doentio, cure-se", Artur fica extremamente ofendido - e a opinião de Damião fica perdida, sem préstimo para eventuais melhorias do seu trabalho. Artur queria elogios!

 

Mas pensemos - no actual panorama literário, carregado de escrevinhadores movidos a dinheiro, sedentos de fama e publicidade, os pseudo-escritores são presa fácil das editoras que, explorando esse sentimento de vaidade, cobram balúrdios para publicar as suas obras - Artur destoaria? Era capaz de apostar que Artur seria o cliente mais fiel da Chiado Editora. Com o seu conto de réis herdado faria publicar as suas poesias num volume cor de rosa; com o seu punhado de libras veríamos "Amores de Poeta" numa encadernação sombria; faria editar a sua lista de supermercado, se a mesma fosse encabeçada pelo seu retrato, pálido e pensativo numa moldura dourada! O Artur antigo é o Pedro Chagas Freitas actual - com a diferença que este escreve muito. Sede de fama, de reconhecimento, de palmadinhas nas costas, do élan de artista inspirado e interessante.

 

Poucas coisas causam mais vergonha alheia que o Artur no dia em que autografa diversos exemplares dos "Esmaltes", simulando "na escrita precipitada a afectação do seu génio" - e a profusão de escrevinhadores de agora, que querem por força roubar o lugar a Camões, sem sequer rever as vírgulas!

publicado às 11:33

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