Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


08.03.17

Dos recursos estilísticos e ideias parvas.

por Nes.

Estou para aqui a pensar em fazer um Mês dos Contos neste blog, talvez em Abril, a ver se divulgamos algumas histórias curtas de Eça.

 

Mês dos Contos, mês doscontos, mês descontos... Descontos não, caramba. Malditas cacofonias.

 

Como? Alguém falou em CACOFONIA?

 

 

Se julgam que a cacofonia apenas tinha efeito cómico para os falecidos Gato Fedorento, abramos "A Capital".

 

"— Que lhe parece? — perguntou Artur, ainda ofegante de excitação declamatória.
— Está forte, está forte que tem diabo! — E Melchior, olhando-o quase com terror, acrescentou: — Safa, o amigo tem ideias muito exaltadas! É logo Comuna para a frente, hem? Irra! — Mas se me dá licença, escapou-lhe aí uma cacofonia. É quando a Liberdade entra e diz que arrasta o manto... Ora leia.
Artur releu, inquieto; era uma das suas estrofes queridas:


Chamais-me, Cidadãos? Eu aqui estou:
Alas à Liberdade!
Nunca cauda mais pura se arrastou
Nas lajes da cidade?


— Aí está! — exclamou Melchior. — Cacofonia. Eu digo isto, o amigo desculpe. Mas vê, nunca cauda... ca-cau... cacau! Eu peço desculpa, mas às vezes são coisas que escapam! E aqui em Lisboa, a crítica começa logo a pegar! É muito severa, é de tremer! Começam logo a achincalhar; ca-cau, cacau do Brasil, chocolate... É o diabo! O amigo tenha paciência. São coisas em que é necessário muita cautela!
Artur estava escarlate; aquela cacofonia na sua ode envergonhava-o tanto como um piolho que lhe encontrassem na gola do fraque; riscou logo o verso com rancor. Aquilo, naturalmente, escapara-lhe ao copiar."

 

daqui.

 

O amigo Artur desculpe, mas realmente deixou fugir um pequenino aspecto na sua declamação - a revisão integral do texto, esse capricho dos poetas e escritores menos prendados que o senhor. Diz que dá jeito. Mais não seja para depois a malta não se queixar que poemas tão elevados levam à vontade de comer doces.

 

Pobre Artur, talvez devesse apostar na prosa. E em melhores amigos, já agora. Esta foi a primeira e última vez que o Melchior ouviu os versos de Artur. Então e nós, amigos? No mês dos contos, alinham?

publicado às 15:06

Mais sobre mim

imagem de perfil

Pesquisar

 

Arquivo

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.