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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


17.09.17

Tecedeiras de anjos, mito ou realidade.

por Nes.

Há uns dias, conduzia enquanto ouvia a "Prova Oral", o mítico programa de Fernando Alvim na Antena 3, onde estavam presentes duas senhoras que tinham escrito livros sobre criminalidade nos tempos antigos e praticada no feminino. Havia várias histórias truculentas, entre as quais a de Luísa de Jesus, uma assassina em série, que adoptava bebés abandonados (deixados na Roda dos Enjeitados) para ficar com o dinheiro e enxoval que as freiras entregavam à mãe adoptiva. Uma vez recebido bebé e bens, matava-o à primeira oportunidade, tendo chegado ao cúmulo de os sufocar a poucos passos da instituição.

 

Pouco depois entrou em linha uma senhora que questionou a autora se esta seria uma "fazedora de anjos", uma expressão que tinha lido num livro decorrido no Rio de Janeiro e que tratava também com uma mulher que assassinava bebés em série. Logo a seguir foi a vez de um cavalheiro que indicou "a senhora deve estar confundida, deve estar a falar de 'O Crime do Padre Amaro'!"

daqui.

 

Efetivamente, não colocando de parte a óbvia sugestão de que mais autores por esse mundo fora tenham falado desta horrorosa figura, é certo que a mais recorrentemente presente na memória da literatura portuguesa será a temível Carlota.

 

"Mas a Dionísia procurava ainda, arranhando devagar o queixo. Também sabia de outra. Essa morava para o lado da Barrosa, a boa distância... Criava em casa, era o seu ofício... Mas nessa nem falar! — Mulher fraca, doente? A Dionísia chegou-se ao pároco, e baixando a voz: — Ai, menino, eu não gosto de acusar ninguém. Mas, está provado, é uma tecedeira de anjos! — Uma quê? — Uma tecedeira de anjos! — O que é isso? Que significa isso? perguntou o pároco. A Dionísia gaguejou-lhe uma explicação. Eram mulheres que recebiam crianças a criar em casa. E sem exceção as crianças morriam... Como tinha havido uma muito conhecida que era tecedeira, e as criancinhas iam para o Céu... Daí é que vinha o nome. — Então as crianças morrem sempre? — Sem falhar. O pároco passeava devagar pelo quarto, enrolando o seu cigarro. — Diga lá tudo, Dionísia. As mulheres matam-nas? Então a excelente matrona declarou que não queria acusar ninguém! Ela não fora espreitar. Não sabia o que se passava nas casas alheias. Mas as crianças morriam todas... — Mas quem vai então entregar uma criança a uma mulher dessas? A Dionísia sorriu, apiedada daquela inocência de homem. — Entregam, sim senhor, às dúzias!"

 

As tecedeiras ou fazedoras de anjos, que no fundo se limitam a despachar os bebés para o outro mundo, seriam muito convenientes num tempo bárbaro como este, em que a bastardia era uma vergonha, a reputação era tudo, e a contracepção ou aborto eram mito. Já pensaram que se a Amélia tomasse a pílula, nada disto teria acontecido? Não foram só a ignorância e a crença num poder indefinido que fizeram com que as consequências daquele namoro nunca tivessem passado pela cabeça dos envolvidos. As crianças que nasciam do adultério, das meninas casadoiras ou dos padres teriam vários destinos - a Roda dos Enjeitados, a criação por amas de leite, ou a ocultação dos seus verdadeiros laços familiares (nem de propósito, a recente reportagem do Público sobre filhos de padres).

 

Como decerto saberão, o destino do filho do padre Amaro foi alvo de várias alterações ao longo das versões que Eça foi escrevendo da obra. Numa edição anterior, o padre deita o filho a uma ribanceira, num ato irrefletido de desespero. O parricídio teria uma certa desculpabilização - ser padre, ter iniciado um romance com uma jovem solteira, não se ter preparado para o que iria acontecer ao longo dos meses da gestação, confiar excessivamente nas graças dos céus, ser um jovem nervoso e pouco maduro para lidar com as suas responsabilidades. O ato louco de atirar um filho à ribanceira seria entendido de forma mais compassiva pela audiência. No entanto Eça não quis que tivéssemos pena do padre Amaro.

daqui.

 

É por isso que não obstante Amaro saber perfeitamente o que aconteceria com o seu filho se o entregasse à ama Carlota, e ter inclusive ponderado a sua denúncia às autoridades, não hesita na hora de decidir que o filho era um escolho a eliminar, para preservar o seu trabalho e a sua posição social. Não se preocupou com a dor de Amélia, nem teve escrúpulos pela morte do filho. Decidiu deliberadamente enviar a criança para o limbo.

 

"Saiu, dirigindo-se para a estrada, sem pressa. Ao pé da ponte veio-lhe porém de repente a ideia, a curiosidade de ir à Barrosa ver a tecedeira... Não lhe falaria: examinaria apenas a casa, a figura da mulher, os aspetos sinistros do sítio... Demais como pároco, como autoridade eclesiástica, devia observar aquele pecado organizado num recanto de estrada, impune e rendoso. Podia mesmo denunciá-lo ao senhor vigário-geral ou ao secretário do governo civil..."

 

"Amaro ficara aterrado. Era ele decerto, eram os seus amores com Amélia que já iam chegando ao vigário-geral em denúncias tortuosas! E ali vinha agora aquele filho, criado a meia légua da cidade, ficar como uma prova viva!... Parecia-lhe extraordinário, quase sobrenatural, ter o Libaninho, que em dois anos não lhe viera a casa duas vezes, ter o Libaninho entrado com aquela nova terrível, quando ele estava ali numa batalha com a consciência. Era como a Providência, que sob a forma grotesca do Libaninho, vinha trazer-lhe o seu aviso, murmurar-lhe: "Não deixes viver quem te pode trazer o escândalo! Olha que já se suspeita de ti!". Era decerto Deus apiedado que não queria que houvesse na terra mais um enjeitado, mais um miserável, — e que reclamava o seu anjo!... Não hesitou: partiu para a estalagem do Cruz, e daí a cavalo para a casa de Carlota."

 

Seriam as tecedeiras de anjo um simples mito urbano?

publicado às 18:16

10.09.17

O que têm em comum Eça e a Guerra dos Tronos?

por Nes.

Há uns anos, lembro-me perfeitamente que Tozé Martinho era autor de uma novela na TVI, em que um casal era impedido de viver em pleno o seu romance porque se tinha descoberto que o rapaz era filho do pai dela. Num dos últimos episódios a heroína estava no altar com outro amor, certamente sem suspeitas genealógicas que a fizessem ter pesadelos com o incesto. Eis que a sua mãe, horrorizada com tudo o que estava a acontecer, grita com o marido durante a parte do falem-agora-ou-calem-se-para-sempre - "A Joana não é tua filha". Questionado quanto a este twist na narrativa, Tozé Martinho disse numa entrevista (que não encontro, já foi há muitos anos) "em Portugal só Eça se atreve a escrever sobre incesto".

 

Em Portugal isso até pode ser verdade, mas na série de culto "Guerra dos Tronos", os aventureiros que viram o primeiro episódio da primeira temporada puderam perceber que o autor não estava para brincadeiras, fazendo dois irmãos - gémeos! - aparecer em grande destaque no final do episódio, a fazer o que tinha de ser feito, com um pequeno rapazinho que acidentalmente os descobre. Nós, que vimos a primeira temporada antes de a série assumir o destaque que tem, devíamos ter logo esperado o pior de alguém que escreve sobre dois gémeos que se conhecem desde o ventre e assumem uma relação amorosa, filhos e tudo, debaixo das barbas de toda a gente. Casos de incesto não ficariam por aí, e em breve veríamos desfilar no ecrã a casa Craster, em que o pai Craster criava as filhas para concubinas e se livrava dos filhos; ou ainda o mais recente romance entre Jon e Dany, tia e sobrinho - de todos, o único caso em que Martin, para já, deu a inocência do desconhecimento.

daqui.

 

As comparações com Eça são incontornáveis, porque de facto são poucos os autores que tradicionalmente se conhecem por abordarem este assunto, e mais ainda quando falamos de autores que o fazem não apenas uma vez, mas várias, e que são incestuosos voluntária e involuntariamente.

 

O caso de Carlos da Maia e Maria Eduarda, tal como Cersei e Jaime Lannister, é o mais comummente citado. A grande tragédia de "Os Maias", e que serve de pano de fundo a toda a crítica social que motiva e sustenta o livro,é precisamente o início deste romance e a descoberta da verdade, inexorável à moda dos gregos. Dois irmãos, separados na tenra infância por uma mãe que parte com a filha e deixa o menino com o pai, conhecem-se na idade adulta e iniciam um romance ardente. Não há nada de leve nesta história, nem sequer a forma fortuita como os factos se revelam.

 

" - Muito agradecido a V. Exc.ª! Eu junto-lhe então um bilhete e V. Exc.ª entrega-o da minha parte ao Carlos da Maia, ou à irmã.

Ega teve um movimento de espanto: - Á irmã!... A que irmã?

O Sr. Guimarães considerou Ega também com assombro. E abandonando-lhe lentamente a mão: - A que irmã!? A irmã dele, à única que tem, à Maria!"

 

Tenho um amigo que insiste que a vírgula mais importante de toda a história da literatura portuguesa é aquela que antecede o trecho "ou à irmã", que isola muito especificamente a parte da alocução do Sr. Guimarães em que toda a nossa atenção tem de estar concentrada. Isola, coloca em relevo, destaca, dá suspense, uma vírgula felicíssima, diz ele. Até acredito, mas é preciso considerar toda a ironia desta revelação - um homem que se preparava para não regressar a Lisboa, que já se despedia de Ega, que apenas acertava um último pormenorzito, ridículo na sua insignificância. Um homem que era tio do homem que mais detestava o romance de Carlos e que tudo tentou para os separar, um homem que tinha todas as respostas, todas, e que os agentes e o dinheiro de Afonso da Maia nunca lograram descobrir. 

daqui.

 

Bem mais desastroso é o caso de Genoveva e Vítor, de "A Tragédia da Rua das Flores", que aparenta em tudo ser um ensaio para o grandioso "Os Maias", com algumas particularidades. Embora menos desenvolvido em tudo - personagens, trama, crítica social - não deixa de ter uma voz própria, principalmente na forma como se descobre o incesto. Genoveva é equiparável a Maria Monforte, uma louca que deixa marido (que se suicida) e filho, que é criado pelo tio. O tio é o Sr. Guimarães deste livro. Vítor, jovem belo e desmiolado - uma mistura de Carlos da Maia e Artur Corvelo - conhece Genoveva quando ela volta a Portugal e não desiste enquanto não a seduz. Quando o tio a conhece e a recorda como a esposa louca do irmão, Genoveva fica horrorizada com o incesto e suicida-se de imediato, para grande dor de Vítor, que nunca chega a saber a verdade.

 

"— Genoveva — disse, baixo. Notou então que estava toda esguedelhada, com o corpete aberto, lívida, velha. Entrou bruscamente. Ela ergueu o rosto, viu-o, ergueu-se num pulo e ficou com os braços estendidos, inteiriços, para ele, os dedos muito abertos. — Que é, Genoveva? — gritou, aflito, correndo para ela. Ela recuou, com os olhos dilatados, o corpo inteiriçado, um esgar na boca, medonho, e os seus braços faziam ansiosamente sinal «que não!, não!» Respirava tragicamente, com um aãh ansioso de agonia. E os olhos, terríveis, pasmados, como mortos, saíam-lhe das órbitas, fixavam-se nele, com uma persistência pavorosa. Vítor ficou petrificado. Balbuciou: — Genoveva, meu amor, que é? — E deu um passo. Mas ela, possuída de um terror alucinado, recuou e, de repente, encolhida, procurou, com os olhos ferozmente esgazeados, uma porta, um canto, uma saída. — Ah, meu Deus, que endoideceste! — exclamou ele com uma voz chorosa, estarrecido. — Mas, Genoveva, sou eu! E ia para ela. Mas ela, abrindo a boca com uma ânsia terrível, soltou, num baque súbito, um grito: — Maldito! Maldito! E volteando-se, num relance, correu à janela e, lançando o corpo sobre o peitoril, atirou-se, com um grito estridente. Vítor sentiu ainda o seu corpo fazer, na rua, um som baço e mole de um fardo de roupa."

daqui.

 

O único caso em que Eça se atreve a fazer as personagens assumir o incesto - sabendo perfeitamente que eram parentes, ainda assim seguiram em frente - foi o de Basílio e Luísa, primos. Creio que tal aconteceu porque entre primos o incesto aparenta tradicionalmente assumir um relevo inferior ("quanto mais prima mais se lhe arrima") e ainda hoje é socialmente aceite. Tal vê-se neste livro, porque o namoro inicial entre os primos, quando Luísa era solteira, nunca foi problema de maior. Não que o casamento de Luísa tenha sido um impedimento maior, mas tudo bem.

 

"Que, verdade, verdade, enquanto estivesse em Lisboa o romance era agradável, muito excitante; porque era muito completo! Havia adulteriozinho, o incestozinho. Mas aquele episódio agora estragava tudo! Não, realmente, o mais razoável era safar-se!"

 

daqui.

 

Conclusões, alguém as tem?

publicado às 11:04

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