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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


10.12.17

Ilustres Palácios

por Nes.

Quando surgiram na imprensa as notícias que davam como certo que a cantora Madonna tinha encontrado finalmente residência em Lisboa, tive alguma curiosidade em saber qual seria o seu novo poiso. Ui, têm dúvidas? Os alfacinhas esperneiam-se para encontrar casas decentes onde viver, após a subida brutal dos preços das casas e das rendas; a senhora Luísa Verónica Ciccone não será diferente do comum dos mortais, principalmente se ainda tiver em mente que o salário mínimo em Portugal é de €557. Além disso, uma demora tão prolongada, para quem alegadamente terá liquidez financeira, agourava o pior para o português médio, que a esta hora considera que o Harry Potter tinha uma sorte danada por viver num armário debaixo das escadas.

 

Fiquei assim bastante chocada quando os media desvendaram o mistério - pois a cantora vai morar nem mais nem menos do que no Palácio do Ramalhete, às Janelas Verdes. O facto de se tratar de um hotel, a ser ocupado exclusivamente pela cantora e família durante o próximo ano, deve ter tirado a qualquer lisboeta a possibilidade de ver como se desenrascava a querida, a fim de lhe seguir o exemplo.

 

daqui.

 

No entanto, o meu queirosiano coração bateu com a novidade - e com a lembrança que logo me assolou a memória, do arranque do meu muito amado "Os Maias".

 

"A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na vizinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de Residência Eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da Sr.ª D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo assimilar-se-ia a um Colégio de Jesuítas. O nome de Ramalhete provinha de certo dum revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do Escudo de Armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letras e números duma data."

 

daqui.

 

Gosto muito quando a atualidade se cruza com os livros de Eça. No entanto, embora o nome do palácio e do bairro lancem a relação entre os factos, Eça não é assim tão linear. Nem podia, não é verdade? Se hoje os escritores se vêm forçados a assinalar no início das suas obras "esta é uma obra de ficção, qualquer similitude entre a ficção e a realidade é pura coincidência, rebeubéu pardais ao ninho", diferente não seria naqueles tempos e lugares, quando toda a gente se conhecia. O poder de observação de Eça era extremamente eficaz a lançar a polémica quanto ao número de barretes contidos em cada obra, prontinhos a enfiar; diferente não seria se se pusesse a descrever exaustivamente a casa de um dos seus conterrâneos. E essa habitação seria o lar de uma família desestruturada - com dois irmãos amantes? Alguém acha que Eça seria assim tão parvo?

"— Aí está! — exclamou Melchior. — Cacofonia. Eu digo isto, o amigo desculpe. Mas vê, nunca cauda... ca-cau... cacau! Eu peço desculpa, mas às vezes são coisas que escapam! E aqui em Lisboa, a crítica começa logo a pegar! É muito severa, é de tremer! Começam logo a achincalhar; ca-cau, cacau do Brasil, chocolate... É o diabo! O amigo tenha paciência. São coisas em que é necessário muita cautela!" (A Capital)

 

daqui.

 

A resposta é sim - sim, amigos! Sim, as pessoas acham que Eça seria parvo, e que tornaria ainda mais escandalosamente pessoal uma história onde já tantas farpas eram lançadas. Só isso justifica que vários donos de palacetes lisboetas se tenham colocado em bicos de pés para chamar a si esse ilustre título.

 

Enfim, para bem da famosa cantora e dos seus, desejo sinceramente que o palácio para onde se mudará em breve seja apenas um local lindíssimo que se inspirou num lugar inventado por Eça para conferir maior charme ao local. Lembrem-se da velha maldição!

"O procurador compôs logo um relatório a enumerar os inconvenientes do casarão: o maior era necessitar tantas obras e tantas despesas; depois, a falta dum jardim devia ser muito sensível a quem saía dos arvoredos de Santa Olavia; e por fim aludia mesmo a uma lenda, segundo a qual eram sempre fatais aos Maias as paredes do Ramalhete, «ainda que (acrescentava ele numa frase meditada) até me envergonho de mencionar tais frioleiras neste século de Voltaire, Guizot e outros filósofos liberais...»

publicado às 17:30

26.11.17

Então eles à noite só tomam chá? Hábitos alimentares no século XIX.

por Nes.

Houve duas coisas que estranhei imenso quando comecei a ler os livros de Eça. A primeira - os livros dele davam-me uma fome tremenda. Eram constantes as referências a bons pratos, comida de conforto, de tal forma descritos que dava vontade de entrar no livro para tirar uma porção.

daqui.

"Da terrina subia o vapor cheiroso do caldo e, na larga travessa a galinha gorda, afogada num arroz húmido e branco, rodeada de nacos de bom paio, tinha uma aparência suculenta de prato morgado." (O Crime do Padre Amaro)

 

"E como Juliana entrava com o bacalhau assado, fez-lhe uma ovação!
— Bravo! Está soberbo!
Tocou-lhe com a ponta do dedo, gulosa; vinha louro, um pouco toscado, abrindo em lascas." (O Primo Basílio)

 

"Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou — e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: — Está bom!
Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia: três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.
— Também lá volto! — exclamava Jacinto com uma convicção imensa. — É que estou com uma fome... Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.
Foi ele que rapou avaramente a sopeira." (A Cidade e as Serras)

daqui.

Se não sabíamos que Eça era um guloso inveterado, podíamos adivinhá-lo pelos seus livros; muitos dos episódios da vida em sociedade, nos quais são descortinados os seus pensamentos e opiniões, acontecem à mesa. E as suas personagens, mesmo já de barriga cheia, não hesitam em continuar a conversa discorrendo abundantemente sobre comida.

 

"Mas em presença dos doces que a Sra. Filomena dispôs sobre a mesa, o Alves Coutinho esquecera as mulheres, e, voltado para Sebastião, discutia gulodices. Indicava as especialidades: para os folhados, o Cocó! Para as natas, o Baltresqui! Para as gelatinas, o Largo de São Domingos! Dava receitas; contava proezas de lambarice, revirando os olhos:
— Porque — dizia — o docinho e a mulherzinha é o que me toca cá por dentro a alma!" (O Primo Basílio)

 

"- E, para ser festa completa, exclamou ele, limpando os bigodes do cognac, enquanto vocês vão ao Nunes pagar a conta, e dar ordens para o break, eu vou-me entender la abaixo à cozinha com a velha Lawrence, e preparar-vos um bacalhau à Alencar, recipe meu... E vocês verão o que é um bacalhau! Porque, lá isso, rapazes, versos os farão outros melhor; bacalhau, não!" (Os Maias)

daqui.

No entanto, a segunda coisa que me espantou foram os horários. Esta gente estava toda trocada, não? Almoçavam logo de manhã? Jantavam a meio da tarde? E à hora do jantar só tomavam chá com torradas?

 

"O administrador surpreendido olhou também o relógio, depois a mesa já posta, os seis talheres, o cesto de flores, as garrafas de Porto.
- Então V. Ex.ª agora janta de manhã? Eu pensei que era o almoço...
- Eu lhe digo, o Carlos necessita ter um regime. De madrugada está já na quinta; almoça ás sete; e janta à uma hora. E eu, enfim, para vigiar as maneiras do rapaz..." (Os Maias)

 

"Mas durante todo o dia, Luísa em roupão não saiu do seu quarto ou da sala, ora estendida na poltrona lendo aos bocados, ora batendo distraidamente no piano pedaços de valsas. Jantou às quatro horas." (O Primo Basílio)

 

"Aos domingos à noite havia em casa de Jorge uma pequena reunião, uma cavaqueira, na sala, em redor do velho candeeiro de porcelana cor-de-rosa. Vinham apenas os íntimos. O "Engenheiro", como se dizia na rua, vivia muito ao seu canto, sem visitas. Tomava-se chá, palrava-se. Era um pouco à estudante. Luísa fazia croché, Jorge cachimbava." (O Primo Basílio)

 

"As velhas sorviam a pequenos goles pelos pires, escolhiam cuidadosamente as torradas; sentia-se o mastigar ruminado dos queixos; e por causa dos pingos da manteiga e das nódoas do chá, estendiam prudentemente os lenços sobre o regaço." (O Crime do Padre Amaro)

daqui.

Estranho, não? Mas mais tarde lembrei-me que a minha avó me perguntava, ao pequeno-almoço, "se já tinha almoçado" e comecei a ligar dois mais dois. Ou seja - para os antigos o almoço é o pequeno almoço, por isso é que é tão cedo. O jantar deles é o nosso almoço, e como na altura se "almoçava" tarde, também se jantava tarde. E como se "jantava" tarde, à noite não havia jantar - mas sim a ceia!

 

Indo por essa lógica, compreende-se melhor que haja personagens, por exemplo, a falar de jantar à uma da tarde, como se refere no excerto d' "Os Maias" acima. Não é apenas o léxico que é diferente - é também o horário em que as pessoas fazem as refeições que é diferente do nosso. Por exemplo, o casal Luísa e Jorge jantava relativamente tarde, quando ele regressava do trabalho. Por seu turno, o padre Amaro "almoçava" depois da missa, porque a ia celebrar em jejum.

daqui.

E como seria de esperar, todo este post deu fome.

 

 

 

publicado às 19:11

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