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O CENÁCULO

Escrutinando Eça.

O CENÁCULO

Escrutinando Eça.


14.06.17

Vencidos uma ova.

por Nes.

Queridos amigos, deixo à vossa imaginação o seguinte exercício - se daqui a cem anos os vossos grupos de amigos, os vossos jantares, as discussões que tivestes na Faculdade, as vossas aventuras amorosas, as memórias que os vossos amigos retêm, se tudo isso viesse relatado e detalhado num manual de estudo para os jovens do futuro, para que vos conheçam e vos julguem, como reagiriam?

 

Só podemos supor qual seria a reacção de Eça, quando encontrasse um compêndio hodierno de História ou Língua Portuguesa e aí visse impressa a fotografia do seu grupo "Vencidos da Vida".

daqui.

 

Creio que Eça perceberia imediatamente que a História é tudo menos imparcial. Este grupo de amigos, hoje falado aos jovens que estudam as diatribes entre românticos e realistas, o ultimato inglês e decadência da Monarquia, ou que se afadigam para ler "Os Maias" (saltando sempre a fastidiosa descrição do Ramalhete), conseguiu na posteridade um élan de rebeldia e injustiça a meu ver imerecido.

 

Sabeis quem são os senhores da fotografia?

 

 daqui.

 

O primeiro pormenor a reter é a quantidade de títulos nobiliárquicos acima mencionados. O segundo é quantos nomes conhecemos nós dos livros que hoje consideramos clássicos. E o terceiro é a história pouco divulgada de alguns senhores que ali posam. Cada um destes chapéus e bigodes retorcidos tinha individualmente  sucesso na carreira escolhida - cônsul Eça de Queirós, ministro Carlos Lobo de Ávila, escritores Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro, político António Cândido - nas relações encetadas - historiador Oliveira Martins, diplomatas Luís Soveral e Bernardo Pindela Conde de Arnoso, par do Reino Conde de Ficalho, mordomo da casa real Conde de Sabugosa - e no dinheiro que tinha no bolso - o riquíssimo e bon vivant Carlos Mayer.

 

O nome "Vencidos da Vida" foi proposto por Oliveira Martins, depois de ouvir Ramalho Ortigão declamar um texto do romancista e dramaturgo Jules Claretie que continha a referida expressão. Esta autodenominação soa muito a desencanto e vitimização, o que é realçado pela forma benévola como a História a retrata. Também contribui a ideia que o país daqueles anos era realmente tão sonolento e sem remédio como descrevem os romances queirosianos, uma concepção muito influenciada pela severidade com que a História conta a crise diplomática de 1890 aos mais jovens.

 

Na realidade, a grupeta aqui formada era constituída por uma série de elementos valorosos da sociedade portuguesa, que pretendia constituir uma alternativa. Os "Vencidos" da vida bem podiam ser alcunhados "Os Vencidos da Ambição"; ao verem que o país não tinha solução - que seria necessariamente colocar os Vencidos no poder - proclamam hipocritamente, nos jornais da época, que o seu intuito é apenas jantar.

 

daqui.

 

Não, nenhum destes senhores era tão desvalorizado pelo seu país como a História os pinta, nem são os heróis desperdiçados de um país que não soube que tinha diamantes no seu seio, enquanto chorava de fome. São simplesmente senhores ilustrados e cultos, que fizeram o melhor que podiam num determinado contexto histórico, e cujo trabalho e pensamento não foi ignorado. Ensinem História com um grão de sal, caros professores!

 

publicado às 11:02

07.06.17

Santos da casa.

por Nes.

Junho, um dos meses mais festivos do ano, traz festas populares e bailaricos por todos os cantos deste Portugal à beira-mar - e à música pimba mistura-se a sardinha assada, pão com chouriço, alhos-porros, manjericos e o diabo a quatro. Nada como passarinhar pelo São João do Porto, pelos Santos em Lisboa, ou pela festa em honra do Santo Honorato de Trácia da Vila Nova do Além para aprender um pouco mais sobre este Portugal.

daqui.

 

A quantidade de bailaricos que se formam frente a uma concertina e quadras brejeiras recordou-me um texto de Eça n' "As Farpas", a propósito do adultério. No texto em questão Eça dá livre curso à pena, começando por falar de um então badalado homicídio perpetrado por um marido enganado - e vai discorrendo sobre os hábitos morais das senhoras de então, influenciadas pela literatura, pela música, pelas conversas e pela falta de ocupação a pensar incessantemente em aventuras amorosas.

 

Nos textos d' "As Farpas" a sensação que temos é que Eça pega num assunto e vai escrevendo, escrevendo tudo o que lhe vai passando pela cabeça, embora da forma articulada e sustentada que denuncia a sua formação como jurista. Há uma parte do texto em que Eça fala da valsa, um dos divertimentos daquele tempo.

 

"Nesta educação da mulher uma só coisa é profundamente boa - a valsa. E é justamente o que mais lhe regateia uma moralidade banal. A valsa é higiénica, moral, depurativa, educadora e positiva.

Um higienista célebre recomendava, a todas as mulheres de 14 anos, para cima duas horas de valsa por dia. Os movimentos rápidos, galopados, fortemente sacudidos, a transpiração igual, outras circunstâncias, tornam a valsa um exercício radicalmente salutar, quase igual à ginástica: desenvolve a firmeza do andar, a solidez das articulações, faz girar abundante e igualmente o sangue, robustece o peito, exercita e excita a facilidade da respiração. E um doce medicamento contra a anemia, a palidez, os suores. E sobretudo uma fadiga. Toda a mulher que se não cansa, idealiza. Dá os bons sonos saudáveis e frescos, o apetite inglês. Dá às raparigas uma boa alegria de ave que voa. E têm-se visto doenças inexplicáveis de mulheres curarem-se com uma valsa. As boas valsas são as de Strauss, ágeis, alegres, radiosas, impelidas, firmemente resvaladas — que têm alguma coisa de ataque e muito de triunfo.

A valsa é moral e educadora: porque acostuma as mulheres a ter dos homens uma ideia positiva e burguesa. E por isso que os românticos, os netos de Byron e de Dom João não valsavam: pálidos, encostados à ombreira, com a gravata de cetim negro em nó, o olhar triste e dominante, os dedos errantes em longos bigodes sentimentais, estavam imóveis em todo o encanto do seu mistério, exalando romance. O homem na frescura da sua toilette, a pele macia e seca, a claque debaixo do braço, sereno, fresco, perfeito, intacto, conversa e ri num baile, pode excitar o sentimento: quem nunca o excitará é o valsista - com a pele oleosa, a testa cheia de gotas, a respiração ofegante, um arquejar pesado, o nariz luzidio, a aba da casaca esvoaçando, as pernas pulantes como as de um gafanhoto que vai para os seus negócios, o ar embezerrado, vermelho, soprando, feliz e grotesco. A mulher olha e sorri. Porque ela é que não perde a graça, se a tem, e o arfar dá-lhe a delicadeza, todos os abandonos mimosos da ave que cansa.

Além disso os vestidos compridos, rojados, leves, foram feitos para a valsa e acentuam-na como um palpitar de asa. De sorte que se pode rir, legitimamente, de cima de seu encanto, do pobre homem que a seu lado resfolga, escarlate e esfalfado. E depois, o homem que valsa, como pode ter espírito? O que naturalmente lhe sairia pela boca fora se a abrisse, não seriam as graças-seriam os bofes: é por isso que ele, duro, cerrado, espesso, alagado, guarda dentro em si para seu uso, cuidadosamente - a pilhéria e a víscera.

Na valsa a mulher faz a poesia do movimento - o homem faz-lhe a farsa. O homem, de resto, nunca deve dançar: o seu movimento são as armas, a luta, a marcha, o salto, a ginástica: já Napoleão o dizia. O Oriente, tão profundo e tão subtil, compreendeu isto admiravelmente: aí as mulheres dançam sós entre si; o homem, encostado no divã, contempla e fuma o chibouk."

 

Creio que os homens de agora ouviram Eça lá dos confins do século XIX, porque é rara a festa popular - das muitas que veremos nas próximas semanas - em que as mulheres dançam a pares, enquanto os homens se mantêm ao longe, envergonhados em demasia. Os homens que por cá dançam ficam no estado descrito por Eça - e se dançam sozinhos, lá terão baforadas etílicas a impelir-lhes os passos. Os homens portugueses estão recatados - e se o cancioneiro popular é aquele que ouvimos aos domingos à tarde na TV, mais vale realmente estar quieto!

publicado às 17:41

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